José Cutrale Júnior comprou uma fábrica falida e a transformou na 1ª do mundo
publicado em 01/06/2012 17:35 | Fernanda Manécolo

O maior empresário da história de Araraquara, José Cutrale Júnior, sempre foi uma unanimidade pelo seu espírito empreendedor. Não à toa, ele era conhecido como o “Rei da Laranja”. Para seu único filho, José Luís Cutrale, além de um império  econômico que se traduz na maior empresa do setor citrícola do mundo, ele deixou o exemplo de homem justo e de excelente empresário, cujo sucesso foi resultado de muito trabalho e ousadia. Ele também deixou muitos amigos fiéis, que pela primeira vez contam um pouco da experiência de ter vivido e trabalhado com ele.
Antes de seu falecimento, em 29 de dezembro de 2004, aos 78 anos, sua empresa já havia dominado os mercados nacional e internacional. Hoje, Cutrale é sinômino de suco de laranja: em média, um de cada três copos consumidos no mundo saiu das fábricas da empresa. Para se ter uma ideia da grandiosidade do negócio, a Cutrale exporta para 90 países e mantém mais de 15 mil empregos diretos, gerando renda e impostos nos municípios onde atua, implantando projetos sociais e ambientais.
Tudo começou quando seu pai, Giuseppe Cutrale, nome que foi aportuguesado para José Cutrale, deixou os laranjais da família na Sicília, Itália, para tentar a vida no Brasil. Logo que chegou em São Paulo, teve a iniciativa de comprar laranja no Rio de Janeiro, maior produtor da fruta naquela época, para vender no Mercado Municipal. Aproveitando os contatos que tinha na Itália, começou a exportá-la para o Canadá, Alemanha e Holanda.
No entanto, o início da 2ª Guerra Mundial praticamente o obrigou a romper com o mercado externo e a situação ficou muito difícil. Em 1947, seu caçula José Cutrale Júnior assumiu os negócios. Naquela época, problemas climáticos já assolavam
a Flórida, nos Estados Unidos, maior produtor mundial de laranja e, movido pelo senso de oportunidade, ele começou a comprar mais e mais.
Cutrale Júnior tinha apenas o primeiro grau completo; teve que abandonar os estudos para ajudar o pai, mas seu estilo de gestão tinha a intuição como referência. Na década de 50, adquiriu uma pequena packing house - empresa
que embalava laranja para exportação -, em Bebedouro (SP). Até então, a família só havia investido na fruta in natura.
Foi em 1967 que Cutrale entrou no mercado de suco. Ele comprou, em Araraquara, a Suconasa, empresa do mesmo segmento que estava falida. E para conseguir reconquistar a confiança dos clientes da fábrica, procurou pessoalmente cada um deles para renegociar as entregas. Como bom negociador que era, conseguiu
retomar a maioria dos contratos.
O destino também ajudou: meses depois de adquirir a antiga Suconasa, outra forte geada na Flórida devastou os pomares e fez os preços internacionais dispararem. Com a fruta valorizada no mercado externo, fechou bons contratos e conseguiu pagar praticamente todo o investimento na Suconasa.
Cutrale nunca administrou os negócios atrás de uma mesa. Viajava quilômetros para vistoriar seus pomares, recolhia caixas e laranjas jogadas pelo chão. Fazia inúmeras contas junto com seus gerentes agrícolas e mantinha planilhas financeiras na cabeça. Tinha excelente memória. Todos que conviveram com ele afirmam que o empresário era muito controlador e eles atribuem seu sucesso a essa característica marcante.

DISCRIÇÃO - Ao longo da vida de José Cutrale Júnior, trabalho e família andavam lado a lado. Sempre foi muito reservado, evitava flashes e entrevistas. Os amigos mais próximos garantem que ele não tinha luxo, não gostava de festas nem de esbanjar dinheiro. Era muito tímido.
Em 1945, se casou com Amélia Bernardini, sua grande companheira, inclusive na empresa. Amigos do casal contam que ela sempre o acompanhava nas negociações e ficava ao seu lado, enquanto contratos importantes eram assinados.
O casal teve um único filho, José Luís Cutrale, hoje com 64 anos, empresário, que está à frente dos negócios iniciados pelo avô italiano. José Luís tratou de seguir os passos do pai. Com a mesma discrição e pulso firme, mantém a empresa entre as mais respeitadas e lucrativas do mundo. Alguns contam que, ainda adolescente, ele ia para a beira da estrada, a pedido de seu pai, para fiscalizar o horário que  passavam seus caminhões e a velocidade.
O jovem aprendeu rápido e logo estava preparado para liderar a Cutrale. Fez cursos de línguas, se especializou em oratória e, o mais importante, herdou de Cutrale Júnior o talento de bom negociador.
Outra característica da família é oferecer oportunidades a seus executivos. Um exemplo disso é que, quando decidiu trazer de São Paulo para Araraquara todo o  seu quadro administrativo, Cutrale construiu um condomínio próximo à fábrica, com casas luxuosas, cercada por uma muralha em forma de coração.
Lá moravam, além dele e a família, seus diretores, que considerava grandes amigos.

Por obra do destino
Um encontro no aeroporto mudou a vida do químico Eliseu Nonino

O químico Eliseu Attilio Nonino, 72 anos, começou a trabalhar na Cutrale antes da
indústria citrícola produzir suco de laranja. No começo da década de 60, ele era funcionário da Companhia Mineira de Conservas, que havia se instalado em Bebedouro justamente para produzir suco com o refugo das frutas da pequena packing house – a empresa que embalava laranja para exportação-, que José Cutrale Júnior havia montado naquela cidade.
A Companhia Mineira de Conservas foi a primeira fábrica de suco de laranja do Brasil. “Era uma empresa pequena de Belo Horizonte, que na década de 60 tentava investir no Estado de São Paulo”, conta Nonino. Nesta empresa, ele era o  responsável pelos contatos com os fornecedores e foi assim que conheceu Cutrale.
Em 1967, o químico trabalhou seis meses em Honduras, na América Central, na montagem de uma fábrica de suco naquela região. Foi lá que recebeu uma carta de sua esposa dizendo que José Cutrale Júnior havia comprado uma empresa em Araraquara e o convidava para trabalhar com ele. “Mas como eu estava longe, fiquei sem saber o que fazer”.
Por obra do destino ou coincidência, na volta ao Brasil, quando o avião fazia uma escala no Panamá, Nonino encontrou Cutrale no aeroporto e ali mesmo eles definiram sua contratação.
A Cutrale havia comprado a Suconasa; em poucos meses a empresa foi reformada e começou a operar com cerca de 60 funcionários, entre eles, Nonino. Sua função era de gerente industrial, mas ele lembra que, no começo, fazia de tudo. “Era um negócio pequeno e eu estava ali para ajudar, fazíamos de tudo e fomos crescendo, era muito estimulante.” Na primeira safra, a antiga Suconasa e recém-fundada Cutrale processou 10 mil caixas de laranja de 40,8 quilos, um recorde para a época.
“Tínhamos uma fábrica cheia de dívidas com fornecedores e clientes desconfiados.
Para entrar no mercado, José Cutrale foi a cada um, pagou os prejuízos que eles haviam tido com a Suconasa e conseguiu reconquistá-los”, ressalta Nonino. Nesta mesma época, recorda ele, um importante comprador de suco fez uma grande encomenda. Praticamente toda a produção de uma safra havia sido vendida a este cliente. Inúmeros barris com suco foram embarcados, mas, quase na chegada, o navio naufragou e tudo foi perdido. “Não era um problema da Cutrale, já que a entrega havia sido feita e a perda se deu no transporte, mas José Cutrale não se conformava e decidiu refazer a entrega. Saimos à caça de laranja em todos os cantos e deu certo.
A encomenda foi refeita e entregue. O cliente ficou muito satisfeito e até hoje é um grande comprador”, conta, sem revelar o nome da empresa em questão.

AMPLIAÇÃO - Em 1968, Nonino conta que foi feita a primeira grande ampliação da Cutrale. Nesta época, a produção passou para 15 mil caixas de 40,8 quilos de laranja por dia. “Era um aumento significativo e um marco para a fábrica”. O quadro de pessoal acompanhou a expansão e, com mais funcionários, o químico ficou totalmente focado na área industrial. “Tinha muitas responsabilidades e era cobrado, por isso, me dedicava ao trabalho”, afirma ele, acrescentando que foi um privilégio trabalhar com Cutrale, com quem aprendeu muito, tanto como pessoa quanto como profissional.
“Ele era um homem bom, um ami go que todos ali sabiam que podiam contar. Certa vez, eu já estava há anos na Cutrale, meus filhos tinham crescido e um deles estava estudando em São Paulo, quando sentiu uma forte cólica de rim. Caiu na rua e teve que ser hospitalizado às pressas. Eu estava aqui trabalhando e, antes que soubesse do ocorrido, Cutrale foi atrás de tudo. Nunca vou me esquecer disso”, lembra, com carinho. “Ele era um empreendedor nato. Sabia lidar com os negócios, tanto que de uma empresa falida, fez um grande império. Hoje, não temos como falar de citricultura e não citar a Cutrale. A empresa é o que é porque teve uma pessoa de personalidade firme que tinha uma grande visão de futuro e contagiava a todos. Posso dizer, com certeza, que quem trabalha na Cutrale carrega um sentimento de fazer bem feito, porque é isso que José Cutrale ensinou”, finaliza.

Além da curva

Visão de futuro era uma das grandes qualidades de José Cutrale Júnior

“Era um homem otimista que costumava ver as coisas além da curva”. Assim,
Grimaldo Stanzani, 63, descreve o empresário e amigo José Cutrale Júnior. Há 34 anos na empresa, ele hoje administra a colheita de laranja. Stanzani trabalhava em um banco quando foi convidado a ingressar na Cutrale. Segundo ele, na época, mal podia imaginar os desafios que o esperavam.
Em um mercado concorrido, seu trabalho sempre exigiu muita dedicação. E ele acredita que boa parte do que aprendeu foi observando José Cutrale Júnior na  convivência diária. “Quando tínhamos alguma dúvida ou achávamos que algo não ia dar certo, íamos falar com ele e a resposta era sempre a mesma: fazer as coisas com coragem de acertar e não com medo de errar”, relembra.
De acordo com Stanzani, a maioria das pessoas que tinha contato direto com Cutrale trabalhava incansavelmente. “Ele tinha uma força que contagiava e como gostava das coisas bem feitas, todos se esforçavam para que o negócio saísse o mais perfeito possível”, completa. Todas as metas e prazos eram cumpridos e, segundo o administrador, Cutrale nunca gostou que as coisas fossem refeitas; seus funcionários sabiam que o certo era acertar de primeira. “Sempre foi assim e foi assim que aprendemos. Ele tinha uma visão diferenciada em uma época em que a expressão ‘executivo de negócios’ nem existia”, elogia.
Nas suas lembranças, Cutrale era um homem que mantinha tudo sob controle. Diariamente conversava com seus funcionários, em pessoa ou por telefone, perguntando sobre o andamento dos negócios. “Outra ponto forte de Cutrale foi saber fazer seu sucessor. Desde pequeno, José Luís trabalha na empresa e hoje comanda tudo com a mesma garra do pai. São pouquíssimas empresas no Brasil que conseguiram uma sucessão tão bem-sucedida”, conclui.

Lanche no pé do pomar

Ele foi um grande amigo e as nossas conversas eram muito sinceras

Sebastião Roque Vieira, 69, trabalhou durante 38 anos na Cutrale. Se aposentou há dois, mas ainda vai até a empresa para matar a saudade dos amigos que lá permanecem. E amizade verdadeira foi o que Vieira encontrou nos anos dedicados à Cutrale. Segundo ele, um de seus grandes amigos, José Cutrale Júnior, não está mais presente, mas ainda mora em seu coração e nas suas melhores lembranças.
Vieira diz que se mudou para Bebedouro no mesmo ano em que o grupo comprou sua primeira fazenda de laranja naquele município, a Santa Alice. Seu destino já parecia traçado e, em 1960, começou a trabalhar na Cutrale daquela cidade como ajudante de serviços gerais. “Fiquei na empresa um ano, mas logo decidi tentar a vida em São Paulo. Quando vi que as coisas na capital não dariam certo, resolvi voltar e recomecei a trabalhar na Cutrale. Isso, já era 1969”, conta.
Mesmo tendo cursado apenas até o ensino fundamental, Vieira teve oportunidade de crescer dentro da empresa. Foi de tudo um pouco, até que chegou ao cargo de supervisor, responsável pela packing house.

RECONHECIMENTO – Em 1980, José Cutrale Júnior disse a Vieira que pretendia construir uma packing house em Araraquara. “E tudo vai ficar nas suas mãos, ele falou. Fiquei muito feliz. Para uma pessoa sem estudo, mas que sempre trabalhou muito, ter o esforço reconhecido foi um grande presente”, afirma.
E como prometido, quando a packing house de Araraquara ficou pronta, Vieira e Cutrale passaram a ter contato direto. “Ele sempre ia à empresa. Costumava chegar de surpresa para  saber como as coisas estavam indo e, por causa disso, nunca nos descuidávamos. O trabalho estava sempre em dia para não corrermos risco. Ninguém queria fazer feio”, brinca.
Aos finais de semana, Cutrale costumava visitar suas fazendas e logo Vieira se tornou sua companhia. “Logo cedo saíamos em quatro, cinco pessoas. Viajávamos vários quilômetros e andávamos em todas as fazendas. Era uma delícia, eu me me arrependo disso”, garante.
Nas visitas, relembra o amigo, Cutrale sempre falava com os gerentes agrícolas e vistoriava o pomar. “Ele não gostava de sujeira e desorganização”, enfatiza Vieira,
lembrando com carinho dos momentos que passou com José Cutrale Júnior. “Ele era nosso patrão, mas sinceramente, tinha ele como um grande amigo. Não conversávamos só sobre laranja, eu contava minha vida para ele e ele me contava coisas de seu cotidiano, era amizade verdadeira”.
O último aniversário de Cutrale Júnior foi comemorado em uma destas caravanas. “Sentamos em um restaurante para almoçar. Era tudo muito simples, do jeito que
ele gostava. O melhor era que ele não tinha luxo e nem soberba. Muitas vezes, levava um isopor nas viagens. Quando chegávamos à fazenda, ele fazia as vistorias e depois sentávamos ao pé de uma laranjeira e tomávamos um lanche”. Vieira diz que, por causa de seu jeito discreto de ser, as pessoas que não o conheciam inventavam histórias a seu respeito. “Muita coisa é mito”, garante. Para ele, Cutrale será sempre o patrão que se tornou seu amigo, que fazia parte de sua família.
 

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